por Silvio Meira

varejo, loja, web, preços… e o comércio social

v

tente comprar um note ou netbook. por onde você começaria? perguntando pra um carinha numa loja qualquer? acho que não, pelo menos na vasta maioria dos casos, a menos que você conheça [e respeite] um deles.

imagepor outro lado, você pode ter um daqueles sobrinhos que parece descender direto de caras como turing, church, gödel, von neumann, shannon, wiener, bush, kleinrock, , berners-lee e castells, só pra citar uns poucos. se seu apadrinhado é este cara, parabéns, ouça-o e tome nota do que ele [ou ela] acha que vai servir pra você. mas cuidado: se o carinha é um dos "fascinados por tecnologia" e aconselha a compra de "tecnologia", o último-grito-da-moda, ao invés de uma combinação de custo e benefício que atende requisitos de performance, usabilidade e preço [por exemplo]… corra. muito, e rápido. você [nem ninguém] quer comprar "tecnologia"… mas solução.

[peraí: quem são os sobrenomes em laranja do parágrafo anterior? são umas poucas das muitas personalidades por trás das teorias fundamentais da informaticidade… a infraestrutura do espaço informacional em que vivemos. a lista, claro, é só um pequeno exemplo de nomes e há muitos mais…]

bem, depois de decidir umas poucas coisas [é pra navegar? é pra jogar? que tipo de jogo?… tem modelagem geométrica na parada?…] e ver um número de alternativas na web, talvez nos sites dos fabricantes e certamente em avaliações de revistas de informática e blogs especializados… você vai em alguma ferramenta de comparação de preços e vê onde é mais barato.

normal; olha só o que a nielsen descobriu, no mundo inteiro:

…online reviews are playing an increasingly important role in purchasing decisions; 57% of online respondents consider reviews prior to purchase, particularly for cars, software and consumer electronics; and 40% of participants said they would not even buy electronics without consulting online reviews beforehand.

imagequarenta por cento dos potenciais consumidores nem pensariam em comprar alguma coisa sem levar avaliações online em consideração. até porque o produto em pauta, apesar da sofisticação tecnológica de seu design, componentes, peças, fabricação e software embutido… é uma commodity. não no sentido de grãos de soja ou pelotas de minério de ferro, claro. mas… qual é mesmo a diferença entre trinta modelos de laptops que usam placas desenhadas pelo mesmo fabricante e software do mesmo fornecedor? o "look and feel" do teclado? o plástico-com-jeito-de-alumínio da estrutura?…

mas tergiverso. você foi lá no buscapé e descobriu que "seu" laptop está na loja eletrônica "x", por um preço bem, mas bem mais barato do que a concorrência. e as chances são altas, muito altas, de que você vai fazer esta compra online. veja o que diz a imagem abaixo, deste gráfico do mashable, sobre compras online:

image

na letra miúda está escrito que, na américa latina, pelo menos um terço dos compradores prefere comprar em lojas online que também têm uma loja física. somos desconfiados; metade ou mais dos americanos declara comprar em lojas que só existem online. mas tirando a áfrica, somos todos parecidos: mas de 80% de nossas populações dizem já ter feito alguma compra online. no caso da américa latina, acho o número exagerado e acredito que inclua carga de celular pela rede [celular], o que não deixa de ser uma "compra online".

então, a cena é a seguinte: você achou o menor preço numa loja online de uma rede física e, morando a quarteirões poucos do lugar, vai até lá ver se consegue o mesmo preço da internet e, no topo disso, ainda ajuda o ambiente. como o notebook que você queria já está na esquina, não vai ser preciso transportar mais um pra perto da sua casa… era só você fechar o negócio ali perto, pegar a coisa no estoque e ir cuidar da sua vida, jogando cityVille, que fosse.

nada disso: na loja "de verdade", o notebook é R$200 mais caro que na web; na web, a entrega é grátis para todo o brasil. então estamos falando de 200 pilas a mais mesmo. mas o vendedor diz… "senhor, eu gostaria muito de não perder esta venda, mas o fato é que não competimos com nossa própria loja online". detalhe: ele me diz que "competimos com outras lojas online, mas não com nossa própria…", ao que eu pergunto se a função da loja deles, online, é destruir a loja física vendendo produtos quase 20% mais baratos desde que você tope esperar seis dias para receber o bem em casa. o vendedor, que tem mais coisa pra fazer, dá uma rabissaca sem palavras e vai vender um ventilador a algum incauto [ou desconectado?…] que ainda não sabe que na web está mais barato… e com frete grátis.

as lojas online das redes físicas parecem ser, de verdade, empresas diferentes. o consumidor, cada vez mais digital, conectado e móvel, sabe entrar na rede a partir da loja de cimento e tijolos e, se não souber liga pra casa e, como já vi mais de uma vez, pede: "minha filha, veja aí na internet o preço da geladeira X, modelo Y… e veja o preço da entrega também…" e lá se foi o negócio para a loja física e seu vendedor, que vive mais da comissão do que do salário.

vamos combinar que muitas das lojas físicas de quem tem lojas virtuais vivem de assimetria de informação, da aposta que uma certa parcela dos consumidores ainda não está em rede ou não domina os instrumentos que lhe possibilitariam, literalmente, usar informação de qualidade a seu favor. mas isso não vai durar muito, as lojas que se preparem. o comércio eletrônico no brasil já passa o faturamento de todos os shoppings da cidade de são paulo combinados e vem crescendo a taxas acima de 30% por ano.

como se não bastasse, sabe mais o que está para acontecer? uma revolução de comércio social, um mercado cujo substrato são os grafos sociais que vem sendo construídos em ambientes como faceBook, twitter, linkedIn e tantos outros, mudança radical que vai desmantelar até uma boa parte do comércio eletrônico clássico.

se eu fosse o gerente da loja física onde tentei comprar um laptop pelo preço da [sua] loja na web anteontem… eu ia ver a apresentação que fiz ontem, em recife, sobre social commerce, para lançamento da plataforma de comércio social clubox. e iria conversar, e a sério, com a galera da minha própria empresa que decidiu me detonar via web. antes que fosse tarde. demais…

image

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

Silvio no Twitter

Arquivo